sábado, 7 de fevereiro de 2009

O que não se gosta.

Duas e quinze da tarde. Nada de atrasos. Chegara quinze minutos mais cedo no local do encontro; porque queria mesmo impressionar.
Caetano era um garoto simples, podemos dizer que era um moço do interior (se é que no interior ainda existem moços). Suas roupas também declaravam isso: uma camisa de botão, xadrez; uma calça de brim azul; e um "sapatênis" já meio fora de moda; e, como é tradição lá no seu interior, impecavelmente cheiroso: seu cheiro podia ser sentido a quinze metros. Não especificarei qual era, mas era bom. E, pra finalizar o jeitão simples, uma barba estranhamente grande, por fazer, que constrastava com as dos garotos de mesma idade da capital.
Duas e vinte da tarde. Nada de atrasos. Chegava 10 minutos mais cedo no local do encontro; não parecia querer impressionar.
Laura não era tão simples assim; podemos até se perguntar como ela conheceu um garoto como ele. Entretanto, a escola é uma integradora de mundos: ainda mais escolas federais. Ela era bem "urbanóide", só que "urbanóide" de capital pequena como aquela não queria dizer muita coisa. Suas gírias não pareciam ser muito diferentes daquelas usadas pelo próprio Caetano quando ele chegou do interior para estudar na capital. Bosta de Estado pequeno também... só que tudo facilitou a convivência.
Caetano achava Laura bonita, e que ela falava bem. Uns amigos em comum apresentaram os dois, Caetano ficou interessado. Como ele não tinha nada de feio, e não falava tão estranho assim, Laura, vá lá, aceitou seu convite para ir ao cinema. Afinal, é um programa barato e se não der certo, não fica longe de ir para casa. O convite aconteceu no colégio.
Laura viu Caetano, com suas roupas simples e seu sorriso tal qual.
Caetano viu Laura. Seu all-star colorido, roupas meio jogadas, e um jingado estranho ao andar. Diferente do rebolado do mulheril que ele estava habituado no interior.
Diálogo:
Laura: Chegou cedo, hein? Gosta de chegar cedo?
Caetano: Gosto.
Laura: Eu não. Odeio. - falou Laura com veemência e indiferença no olhar.
Que cortada. Pobre Caetano. Primeira patada do encontro, e de graça, porque ele não teve tato pra responder, ele pensou. Mas ele reagiu bem; sorriu, e andou tranquilo ao lado de Laura em direção ao cinema.
Ao chegarem lá, foram escolher o filme. Só coisa ruim. Deusdocéu. Que azar, pensou Caetano. E Laura não parecia estar muito contente. Caetano, pra amenizar procurou ver o melhor filme daqueles. Tinha uma comédia; não era muito escrachada, nem muito "inglês". Ele pensou que poderia agradar, afinal, era um meio-a-meio. E todo mundo gosta de comédia.
Diálogo:
Caetano: E aí? A gente pode assistir esse. Aponta o dedo.
Laura: Esse? Comédia sem graça. Odeio comédia, pra ser sincera. Olha, você já escolheu um péssimo dia pra ir no cinema, só com filme ruim; então, eu mando na escolha do filme, ok?
Paft. Mais uma. Mesmo que Laura tenha dado um bom sorriso debochado depois de tudo. Caetano tinha entendido aquele fora. Por sua sorte, ou azar, não sei, o filme já ia conversar e não tinham tanto tempo pra conversar. Correram pro filme que Laura escolheu.
Caetano passou o filme pensando em como começar um diálogo produtivo (entenda-se produtivo aí como "não quero me lascar") com Laura. O filme não ajudava. Ele não entendia nada daquele tipo de filme que Laura escolheu, e nem prestou muita atenção: estava concentrado em não dormir.
Ao acabar o filme. Eles foram dar uma volta lá pelas redondezas do shopping onde o cinema estava localizado. E, AHHH! Caetano pensou, Laura reclamava de tudo, e de todos; Caetano não podia achar nada que poderia ser legal pra puxar um assunto, que ela cortava com seus "eu odeio", "eu não gosto", "Bah...". Ele era um garoto simples, falava bem das coisas boas da vida, que pelo menos ele achava boas e tal, divertidas, bonitas. Mas ela não parecia achar isso das coisas dele. Bem, ele estava a ponto de desistir, quando passou perto de um jardim localizado dentro do shopping. Era bem cuidado e com muitas flores. Caetano não gostava muito de flores, a única coisa do campo de que não gostava, pra ser sincero, porque lhe davam alergia. Olhou para Laura e pensou que "uma garota como ela, amante de todo esse concreto e cimento da cidade, não deve gostar muito de flores". Eis uma coisa que ele não gostava que podia discorrer um diálogo sobre tal.
Diálogo:
Caetano: Odeio flores. Me dão alergia pesada. Não gosto nem de jardins pequenos em que elas estejam.
Laura: É é? Pois eu amo flores; até cultivo um jardinzinho no pequeno quintal lá de casa. Deus, como alguém não pode gostar de flores?!
Putamerda. O cara mais azarado do mundo: eis o que eu sou, Caetano comentava consigo mesmo. Aquilo foi a gota d'água. Essa menina não gosta de nada. Na verdade, acho que ela nem gosta de mim.
Diálogo:
Caetano: Vamo embora.
Laura: Já? - com aquele sorriso debochado na cara. Parecia que ela tinha feito de tudo mesmo pra o negócio não dar certo.
Laura, quando chegou, já viu que o negócio não ia dar certo. Aquele garoto simples não parecia que iria agradá-la. Dito e feito. Além de seus gostos simplórios, o garoto ainda não parecia que tinha atitude. E isso sim, isso siiiiim a irritava. Aguentava todas aquelas patadas dela com sorriso na cara. Idiota. Tão bonito, tão besta, meuDeus.
E parecia que o "sho" não iria acabar. No caminho pra o ponto de ônibus, Laura ralhava de tudo e de todos. Só que, dessa vez, em vez de Caetano estar muito bem sorrindo, estava grave e sério. Sério ao ponto de que parou, segurou no braço de Laura, no ponto de ônibus e disse, até certo ponto, cínico.
Diálogo:
Caetano: Ei, filha. Você não goza não?
Laura, ficou meio pasma. Não imaginava que um garoto tão simples, que tinha toda aquela cordialidade e passividade, podia dar um ataque cínico daqueles. Mas, Laura não ia ficar por baixo.
Laura: Eu? Posso até gozar, mas não com um cara que usa essas roupas. Aponta o dedo pra camisa de botão xadrez de Caetano
Bem, esperando uma reação diferente dessa vez, Laura pensou "não é possível que agora ele não tome uma atitude". Caetano, simplesmente, sorriu. E Laura, bufou.
Cinco minutos de silêncio, o ônibus chegou. Laura vai em direção ao ônibus, Caetano atrás. Laura não imagina porque ele vem atrás dela, já que aquele não era seu ônibus e ela já tinha dado tcha. Quando, então, ela vai subir no ônibus, Caetano, inesperadamente, segura seu braço mais uma vez, e fala no seu ouvido, com o sorriso debochado que ela já tinha com propriedade, e ele arrancara dela.
Caetano: Ô, moça. Eu não preciso dessas roupas simples pra fazer você gozar não.
Ela para, tenta raciocinar a atitude do garoto. O motorista grita, a galera empurra ela pra dentro do ônibus. Caetano dá as costas e sai, com o mesmo sorriso, que era dela.
Caetano pensa consigo mesmo: Preciso comprar novas roupas. E anda em direção ao shopping novamente.
Laura, parada no seu banco de ônibus. Agora não mais está indiferente, ou debochado, cínica, irritadiça. Está pensativa.
Se imagina lambuzada enquanto roça seu rosto naquela barba por fazer.

10 comentários:

Nathi disse...

Nossa...Tenssoo esse relacionamento hein..

" Ô, moça. Eu não preciso dessas roupas simples pra fazer você gozar não."

Ôh loko...que palavriado chulo é este garoto??
Pra ter o diretio de me chamar de filha tem que usar algo mais "fino"!

^^

Yuri Padilha disse...

Ele demorou um pouco a começar as 'preliminares'.


Mas não foi tão mal assim.

=)

João Gilberto disse...

Primeiro detalhe: a escolha do nome dos persongens.

Segundo detalhe: a descrição dos personagens e a escola.

Detalhe 3: o jeito de falar de Laura.

A vantagem da literatura em relação a vida é que na primeira podemos mecher em tudo: misturar, cortar, reescrever e por ai vai.

Bom post doutor, inté mais que Angelita ta "apurrinhado" pra usar o pc. Valeu.

Nathi disse...

Oiii...vai ter ontinuação essa coisa de desejo aí?!?!

Nina Ferreira disse...

É cada fetiche que me aparece...

Nina Ferreira disse...

Tudo bem, era pra ser subentendido mesmo...

Nathi disse...

Bom aí vai uma dica:

Escreva sobre algo que vc nunca pensou em escrever antes, ou sempre que pensava nisso deixava pra depois, adiava pensar nisso...uma coisa que eu não entendo e sempre adio para pensar sobre é a "eternidade" ou "infinito"...acho que é pq eu sou humana e tenho limitações, como posso entender algo sem limitação?!?!

Bom, foi o que eu pensei, mas faz o que vc quiser..

Nathi disse...

"De repente, vemos aqueles seus havitantes beduínos rindo em suas dunas."

Vc tem toda razão..mas fazer o que, não pensei nisso a alguns anos atrás!!

^^

Ainda bem que agora tem vc pra me abrir os olhos, hein?!

(Curtiu a puxação de saco!?)

Charles C. disse...

Agora que estou há um tempo sem tempo para passar horas e horas debruçado sobre um livro qualquer, tenho saudades dos livros. E agora pude matar um pouco essa saudade chata!!
Gostei da leitura. Bem escrito E me envolveu!!

valeu.

marcus dutra disse...

Ô tesão da bexiga!

É só o que eu tenho pra falar xD